21 de junho de 2015

Comentários de João 9

_________________________________________________________________

Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
_________________________________________________________________


1 E indo [Jesus] passando, viu a um homem cego desde o nascimento. 
2 E seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou? Este, ou seus pais, para que nascesse cego? 
3 Respondeu Jesus: Nem este pecou, nem seus pais; mas sim para que as obras de Deus nele se manifestem. 
4 A mim me convém trabalhar as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar. 
5 Enquanto estiver no mundo, eu sou a luz do mundo. 
6 Dito isto, cuspiu em terra, e fez lama do cuspe, e untou com aquela lama os olhos do cego. 
7 E disse-lhe: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que se traduz Enviado). Foi pois, e lavou-se; e voltou vendo. 
8 Então os vizinhos, e os que de antes o viram que era cego, diziam: Não é este aquele que estava sentado, e mendigava? 
9 Outros diziam: É este. E outros: Parece-se com ele. Ele dizia: Sou eu. 
10 Então lhe diziam: Como teus olhos se abriram? 
11 Respondeu ele, e disse: Aquele homem chamado Jesus fez lama, untou meus olhos, e me disse: Vai ao tanque de Siloé, e lava-te. E fui, e me lavei, e vi. 
12 Disseram-lhe, pois: Onde ele está? Disse ele: Não sei. 
13 Levaram aos Fariseus o ex-cego. 
14 E era sábado, quando Jesus fez a lama, e abriu os olhos dele. 
15 Então voltaram também os Fariseus a perguntar-lhe como vira, e ele lhes disse: Pôs lama sobre os meus olhos, e me lavei, e vejo. 
16 Então que alguns dos Fariseus diziam: Este homem não é de Deus, pois não guarda o sábado. Outros diziam: Como pode um homem pecador fazer tais sinais? E havia divisão entre eles. 
17 Voltaram a dizer ao cego: Tu que dizes dele, que abriu teus olhos? E ele disse: Que é profeta. 
18 Portanto os judeus não criam nele, de que houvesse sido cego, e [passasse a] ver, até que chamaram aos pais dos que [passou a] ver. 
19 E perguntaram-lhes, dizendo: É este vosso filho, aquele que dizeis que nasceu cego? Como pois agora vê? 
20 Responderam-lhes seus pais, e disseram: Sabemos que este é nosso filho, e que nasceu cego; 
21 Mas como agora ele vê, não sabemos; ou, quem lhe abriu os olhos, não sabemos; ele tem idade [suficiente] , perguntai a ele, ele falará por si mesmo. 
22 Isto disseram seus pais, pois temiam aos judeus. Porque já os Judeus tinham combinado, que se alguém confessasse que ele era o Cristo, seria expulso da sinagoga. 
23 Por isso disseram seus pais: Ele tem idade [suficiente] , perguntai a ele. 
24 Chamaram pois segunda vez ao homem que era cego, e disseram-lhe: Dá glória a Deus; nós sabemos que esse homem é pecador. 
25 Respondeu pois ele, e disse: Se é pecador, não o sei; uma coisa sei, que havendo eu sido cego, agora vejo. 
26 E voltaram a lhe dizer: O que ele te fez? Como ele abriu os teus olhos? 
27 Ele lhes respondeu: Eu já vos disse, e ainda não o ouvistes; para que quereis voltar a ouvir? Por acaso vós também quereis ser discípulos dele? 
28 Então lhe insultaram, e disseram: Tu sejas discípulo dele; mas nós somos discípulos de Moisés. 
29 Bem sabemos nós que Deus falou a Moisés; mas este nem de onde é, não sabemos. 
30 Aquele homem respondeu, e disse-lhes: Porque nisto está a maravilha: que vós não sabeis de onde ele é; e a mim abriu meus olhos! 
31 E bem sabemos que Deus não ouve aos pecadores; mas se alguém é temente a Deus, e faz sua vontade, a este ouve. 
32 Desde o princípio dos tempos nunca se ouviu de que alguém que tenha aberto os olhos de um que tenha nascido cego. 
33 Se este não fosse vindo de Deus, nada poderia fazer. 
34 Eles responderam, e lhe disseram: Tu és todo nascido em pecados, e nos ensina? E o lançaram fora. 
35 Ouviu Jesus que o haviam lançado fora, e achando-o, disse-lhe: Crês tu no Filho de Deus? 
36 Respondeu ele, e disse: Quem é, Senhor, para que nele creia? 
37 E disse-lhe Jesus: Tu já o tens visto; e este é o que fala contigo. 
38 E ele disse: Creio, Senhor; E adorou-o. 
39 E disse Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, para os que não veem, vejam; e os que veem, ceguem. 
40 E ouviram isto [alguns] dos fariseus, que estavam com ele; e lhe disseram: Também nós somos cegos? 
41 Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas agora dizeis: Vemos; portanto vosso pecado permanece.



9:2 Quem pecou? Na tradição judaica, os males que uma pessoa sofria em vida eram resultado dos pecados da própria pessoa (e consequentemente, se alguém vivia em fartura e riqueza significava que era um justo). Este é o pensamento exposto, por exemplo, pelos três amigos de Jó, que o acusavam injustamente de pecado uma vez que este passava por aflições nunca antes sofridas por outro homem, mesmo Jó sendo o mais justo e íntegro de toda a terra (Jó 1:1). Jesus veio para desfazer esta falsa concepção. Nem todo mundo que é atribulado na vida fez algo de ruim para merecer isso, e nem todo mundo que é próspero fez algo de bom para merecer isso. A retribuição só virá na eternidade (Ap.22:12), não nesta vida. este ou seus pais? Ainda de acordo com a tradição dos rabinos, se um bebê chutava a barriga da mãe enquanto dentro dela, seria castigado por isso quando nascesse. Outros ainda eram reencarnacionistas, ou seja, criam que aquele homem havia pecado em uma vida passada. Então, se o mal é sempre um castigo divino e se aquele homem já tinha nascido cego, só havia duas possibilidades: ou aquele homem havia pecado antes de nascer, ou então era por causa dos pecados de seus pais (algo veementemente negado por Deus – veja Dt.24:16). Jesus rejeita ambas as possibilidades (v.3), tanto a da reencarnação, quanto a da maldição hereditária, uma vez que nenhuma das duas é compatível com a doutrina cristã.

9:16 pois não guarda o sábado. Para os fariseus, até a cura no sábado era considerado um “trabalho” (embora nem a lei de Moisés afirmasse isso). Eles haviam imposto várias regras adicionais em torno da guarda sabática, e Jesus tirou essas cargas.

9.22 seria expulso da sinagoga. João assinalou que muitos líderes dos judeus criam em Jesus, mas se recusavam a afirmar isso publicamente, porque queriam mais a aprovação dos homens do que a aprovação de Deus (Jo.12:43). Ainda hoje, muitos tem medo de afirmar certas doutrinas que sabem que são bíblicas, porque isto desagradaria a maioria dos teólogos que pensam diferente, e teriam com isso mais inimigos do que se apenas repetissem o que dizem as tradições humanas. Ainda buscam mais a glória dos homens do que a de Deus.

9.24 dá glória a Deus. Uma melhor tradução seria: “Para a glória de Deus, diga a verdade...” (NVI). Eles não estavam querendo que aquele homem dissesse “glória a Deus”, mas que dissesse a verdade em nome de Deus.

9.28 somos discípulos de Moisés. Os fariseus se consideravam os sucessores de Moisés e até diziam se sentar na “cátedra” dele (Mt.23:2). Eles diziam guardar certas tradições orais que supostamente remetiam a desde os tempos de Moisés, sendo transmitida adiante geração após geração, incorruptivelmente. Mas Jesus combateu essas tradições por não serem bíblicas (v. nota em Mt.15:2). Qualquer semelhança pode não ser mera coincidência.

9:34 tu és todo nascido em pecados. V. nota em Mt.9:2. e o lançaram fora. I.e, ele foi expulso da sinagoga (v. 22).

9.38 e o adorou. V. nota em Mt.2:11.

9.39 para os que não veem, vejam. I.e, os marginalizados e excluídos da sociedade nos tempos de Jesus, que agora teriam mais oportunidade com a mensagem do evangelho. Pode também se referir aos gentios como um todo, que até então estavam de fora das promessas de Deus reservadas exclusivamente aos judeus, e que dali em diante estariam dentro sob a condição de crer em Jesus como o Cristo, fazendo parte do Seu corpo místico (Igreja).

9.40 também nós somos cegos? Os fariseus entenderam que a mensagem sobre a cegueira espiritual se aplicava a eles. Jesus acentua que a condenação deles era ainda mais evidente uma vez que eles entendem que podem ver e mesmo assim decidem viver nas trevas espirituais (v. 41).

9.41 se fôsseis cegos, não teríeis pecado. I.e, se eles nunca tivessem ouvido falar de Jesus, eles não seriam culpados por rejeitá-lo (seriam julgados de acordo com a lei moral, da qual Paulo fala em Rm.2:13-16). Mas uma vez que eles “veem” Jesus e mesmo assim deliberadamente o rejeitam, o pecado deles permanece, tornando-os indesculpáveis.

0 comentários:

Postar um comentário

Sua participação é importante e será publicada após passar pela moderação. Todos os tipos de comentários ou perguntas educadas são bem-vindas e serão respondidas cordialmente.