15 de julho de 2014

Comentários de Mateus 18

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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
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1. Naquela mesma hora os discípulos chegaram até Jesus, dizendo: 
Quem, pois, é o maior no Reino dos céus?
2. E Jesus chamou a si uma criança [e] a pôs no meio deles.
3. E disse: 
Em verdade vos digo, que se vós não converterdes, e fordes como crianças, em maneira nenhuma entrareis no reino dos céus.
4. Portanto qualquer um que se humilhar como esta criança, este é o maior no reino dos céus.
5. E qualquer um que a um tal menino receber em meu nome, recebe a mim.
6. Mas qualquer um que ofender a um destes pequenos, que em mim creem, melhor lhe fora que uma grande pedra de moinho lhe fosse pendurada ao pescoço, e se afundasse no fundo do mar.
7. Ai do mundo por causa das ofensas! Porque é necessário que venham ofensas; mas ai daquela pessoa por quem a ofensa vem!
8. Portanto, se tua mão ou teu pé te ofende, corta-os, e lança[-os] de ti; melhor te é entrar manco ou aleijado na vida, do que tendo duas mãos, ou dois pés, ser lançado no fogo eterno.
9. E se teu olho te ofende, arranca-o, e lança-o de ti. Melhor te é entrar com um olho na vida, do que tendo dois olhos, ser lançado no fogo do inferno.
10. Olhai que não desprezeis a algum destes pequenos; porque eu vos digo, que sempre seus anjos nos céus veem a face de meu Pai, que [está] nos céus.
11. Porque o Filho do homem veio para salvar o que havia se perdido.
12. Que vos parece? Se alguém tivesse cem ovelhas, e uma delas se desviasse, não iria pelos montes, deixando as noventa e nove, em busca da desviada?
13. E se acontecesse achá-la, em verdade vos digo, Que mais se alegra daquela, que das noventa e nove, que se não desviaram.
14. Assim não é a vontade de vosso Pai, que [está] nos céus, que um destes pequenos se perca.
15. Porém se teu irmão pecar contra ti, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, a teu irmão ganhaste.
16. Porém se não te ouvir, toma ainda contigo um ou dois, para que em boca de duas ou três testemunhas, confirma toda palavra.
17. E se não lhes der ouvidos, dize [sobre isto] à igreja; e se também não der ouvidos à igreja, considera-o como gentio e cobrador de impostos.
18. Em verdade vos digo, que tudo o que ligardes na terra, será ligado no céu; e tudo o que desligardes na terra, será desligado no céu.
19. E digo-vos que, se dois de vós se concordarem na terra, sobre qualquer coisa que pedirem, lhes será feito por meu Pai, que [está] nos céus.
20. Porque aonde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles.
21. Então Pedro chegando-se a ele, disse: 
Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?
22. Jesus lhe disse: 
Eu não te digo até sete, mas sim até setenta vezes sete.
23. Pelo que o Reino dos céus se compara a um certo rei, que quis fazer contas com seus servos.
24. E começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos.
25. E não tendo ele com que pagar, mandou o seu senhor vender a ele, e a sua mulher, e filhos, com tudo quanto tinha, e que [a dívida] fosse paga.
26. Então aquele servo, prostrando-se, ficou em posição de reverência, dizendo: 
Senhor, sê misericordioso em paciência para comigo, e tudo te pagarei.
27. E movido o senhor daquele servo a íntima compaixão, soltou-o, e perdoou-lhe a dívida.
28. Saindo porém aquele servo, achou um de seus colegas servos que lhe devia cem dinheiros; e agarrando, [o] sufocava, dizendo: 
Paga-me o que [me] deves.
29. Então seu colega servo, prostrando-se a seus pés, suplicava-lhe, dizendo: 
Sê misericordioso em paciência para comigo, e tudo te pagarei.
30. Mas ele não quis; em vez disso foi, e o lançou na prisão, até que pagasse a dívida.
31. Vendo pois seus colegas servos o que se passava, entristeceram-se muito; e vindo, declararam a seu senhor tudo o que passara.
32. Então chamando o seu senhor a si, disse-lhe: 
Servo malvado; toda aquela dívida te perdoei, porque me suplicaste;
33. Não te convinha a ti também ter misericórdia de teu colega servo, como eu também tive misericórdia de ti?
34. E tendo seu senhor se irritado, entregou-o aos torturadores, até que pagasse tudo o que lhe devia.
35. Assim também vos fará meu Pai celestial, se de coração não perdoardes cada um a seu irmão suas ofensas.




18.3 se vós não converterdes, e fordes como crianças. No sentido de pureza e humildade. O texto mostra que as crianças são naturalmente herdeiras do Reino dos céus, pois elas são um padrão pelo qual alguém teria que se assemelhar para ser salvo. 

18.6 melhor que lhe fora que uma grande pedra de moinho lhe fosse pendurada ao pescoço, e se afundasse no fundo do mar. Embora o suicídio seja a destruição da carne, que implica na destruição eterna de quem se matou (v. nota em 1Co.3:17), ele é menos ruim do que trazer a perdição a outras pessoas. Em outras palavras, aos hereges que fazem com que os crentes se percam seria melhor não terem nascido (Mc.14:21) ou morrerem sem levar ninguém junto consigo (Mt.18:6). Cristo não está apoiando o suicídio, mas mostrando o grau de gravidade que incorre a pessoa que conduz outras ao mau caminho.

18.8 corta-os e lança-os de ti. V. nota em Mc.9:45.

18.8 fogo eterno. V. nota em Jd.7.

18.10 seus anjos. Mostra que cada crente possui um anjo particular, popularmente conhecido como “anjo da guarda” (v. nota em At.12:15).

18.14 não é a vontade de vosso Pai... que um destes pequeninos se perca. Deus não quer que nenhum “pequeno” se perca, e por isso providenciou a morte de Cristo como expiação universal para com todos eles. Seria incoerente afirmar que Jesus não morreu por todos os pequeninos, fadando muitos deles à morte eterna, mas mesmo assim desejando que eles sejam salvos, contra toda e qualquer possibilidade anulada pelo próprio Deus.

18.17 dize à igreja. A regra para o crente que está deliberadamente vivendo no pecado é primeiro repreendê-lo pessoalmente, depois na presença de poucas testemunhas, e depois na de muitas testemunhas, diante de toda a comunidade de cristãos. A intenção não é de envergonhá-lo, mas de exortá-lo na tentativa de conduzi-lo ao arrependimento. Contudo, se ele ainda se recusa a se arrepender, deve ser excomungado (1Co.5:13) e considerado mais um descrente, como outro qualquer.

18.18 tudo o que ligardes na terra, será ligado no céu. O contexto mostra que é através da oração (v.19) e da pregação do evangelho (At.14:27). As “chaves”, que são usadas para ligar e desligar no Céu, não são uma prerrogativa apenas de Pedro, mas de todos os demais discípulos. Em Mt.16:19, Cristo diz que daria (tempo verbal no futuro) as chaves a Pedro, mas não diz que as daria somente a Pedro. Esta promessa se cumpriu aqui, em Mt.18:18, com o verbo no plural, como uma referência a todo o corpo apostólico. Assim sendo, as chaves não garantem nenhuma supremacia ou infalibilidade pessoal a Pedro, acima dos demais. Até Paulo e Barnabé usaram as chaves para “abrir a porta da fé aos gentios” (At.14:27), o que acontece quando pessoas a quem o evangelho ainda não havia chegado podem ouvir as boas novas.

Além disso, o poder das chaves e o “ligar e desligar” está diretamente relacionado ao poder da oração. No v.18 Cristo fala sobre ligar e desligar, e logo no versículo seguinte ele diz que, onde dois ou três estiverem orando em seu nome, ali ele estaria no meio deles. Quando Deus criou o homem, Ele lhe deu a autoridade sobre a terra (Sl.115:16), e confiou todas as coisas às orações dos crentes. Assim, quando oramos por alguma coisa estamos “ligando” essa coisa aos céus em oração, para que Deus conceda de acordo com a vontade dele. Mas, quando deixamos de orar, estamos “desligando” esse canal divino com o homem, pelo qual Ele condicionou todas as coisas. Por isso existem coisas que recebemos pela oração e que não receberíamos se não tivéssemos orado (desligado no Céu), e coisas que não recebemos e que teríamos recebido caso tivéssemos orado (ligado no Céu).

18.19 qualquer coisa que pedirem. Logicamente, há uma condição implícita neste princípio, que é a vontade de Deus. Ele não vai atender literalmente “qualquer coisa” que alguém pedir. Se alguém pedir para tomar o lugar de Deus, ou para ganhar duzentas vezes na loteria, ou para nunca mais ter nenhuma doença ou tribulação e viver sempre rico e feliz, ele não será respondido positivamente, pois está se posicionando contra a vontade de Deus, que é a única condição implícita na resposta à oração (1Jo.5:14). É por isso que Paulo orou para ser curado de seu espinho na carne, mas não foi (2Co.12:8-9).

18.23-35 A parábola mostra a dívida do homem para com Deus e do homem para com o seu próximo. A dívida que Deus perdoou o homem pelo pecado é enorme, pois nós naturalmente somos merecedores da morte eterna por nossos pecados (Rm.6:23), mas Jesus quitou essa dívida na cruz do Calvário quando expiou os pecados da humanidade, de modo que aquele que se apropria dessa justificação pela fé torna-se co-participante de Cristo no Reino celestial (Rm.8:17). Mas, ao mesmo tempo em que Cristo nos perdoou de uma dívida eterna, existem pessoas que nos fizeram mal e que devemos perdoá-las da mesma forma que Cristo nos perdoou. Essa dívida do próximo para conosco é infinitamente inferior à dívida nossa para com Deus, assim como a diferença entre dez mil talentos e cem denários na parábola (um talento era o equivalente a seis mil denários, o que mostra que a dívida do homem para com o Senhor era impossível de ser paga por ele, mas que a dívida do homem para com o homem poderia ser facilmente quitada). Ao negligenciarmos o perdão para com o próximo, estamos nos esquecendo que Cristo nos perdoou de uma dívida infinitamente maior. A lição final da parábola é que aquele que não perdoa o próximo de uma dívida humana não pode obter o perdão de Deus de uma dívida eterna. É porque Deus nos perdoou em Cristo que temos a obrigação e o dever de exercer perdão para com o próximo nesta vida.

18.34 até que pagasse tudo o que lhe devia. V. nota em Mt.5:26.

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