30 de julho de 2014

Comentários de Lucas 16

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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
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1. E dizia também a seus discípulos:
Havia um certo homem rico, o qual tinha um mordomo; e este lhe foi acusado de fazer perder seus bens.
2. E ele, chamando-o, disse-lhe:
Como ouço isto sobre ti? Presta contas de teu trabalho, porque não poderás mais ser [meu] mordomo.
3. E disse o mordomo para si mesmo:
O que farei, agora que meu senhor está me tirando o trabalho de mordomo? Cavar eu não posso; mendigar eu tenho vergonha.
4. Eu sei o que farei, para que, quando eu for expulso do meu trabalho de mordomo, me recebam em suas casas.
5. E chamando a si a cada um dos devedores de seu senhor, disse ao primeiro:
Quanto deves a meu senhor?
6. E ele disse:
Cem medidas de azeite.
E disse-lhe:
Pega a tua conta, senta, e escreve logo cinquenta.
7. Depois disse a outro:
E tu, quanto deves?
E ele disse:
Cem volumes de trigo.
E disse-lhe:
Toma tua conta, e escreve oitenta.
8. E aquele senhor elogiou o injusto mordomo, por ter feito prudentemente; porque os filhos deste mundo são mais prudentes do que os filhos da luz com esta geração.
9. E eu vos digo: fazei amigos para vós com as riquezas da injustiça, para que quando vos faltar, vos recebam nos tabernáculos eternos.
10. Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito; e quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito.
11. Pois se nas riquezas da injustiça não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras [riquezas]?
12. E se nas [coisas] dos outros não fostes fiéis, quem vos dará o que é vosso?
13. Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque ou irá odiar a um, e a amar ao outro; ou irá se achegar a um, e desprezar ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.
14. E os fariseus também ouviram todas estas coisas, eles que eram avarentos. E zombaram dele.
15. E disse-lhes:
Vós sois os que justificais a vós mesmos diante dos seres humanos; mas Deus conhece vossos corações. Porque o que é excelente para os seres humanos é odiável diante de Deus.
16. A Lei e os profetas [foram] até João; desde então, o Reino de Deus é anunciado, todo homem [tenta entrar] nele pela força. 
17. E é mais fácil passar o céu e a terra do que cair um traço de alguma letra da Lei.
18. Qualquer que deixa sua mulher, e casa com outra, adultera; e qualquer que se casa com a deixada pelo marido, [também] adultera.
19. Havia porém um certo homem rico, e vestia-se de púrpura, e de linho finíssimo, e festejava todo dia com luxo.
20. Havia também um certo mendigo, de nome Lázaro, o qual ficava deitado à sua porta cheio de feridas.
21. E desejava se satisfazer com as migalhas que caíam da mesa do rico; porém vinham também os cães, e lambiam suas feridas.
22. E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o colo de Abraão. E o rico também morreu, e foi sepultado.
23. E estando no mundo dos mortos em tormentos, ele levantou seus olhos, e viu a Abraão de longe, e a Lázaro em seu colo.
24. E ele, chamando, disse:
Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro que molhe a ponta de seu dedo na água, e refresque a minha língua; porque estou sofrendo neste fogo.
25. Porém Abraão disse:
Filho, lembra-te que em tua vida recebeste teus bens, e Lázaro do mesmo jeito [recebeu] males. E agora este é consolado, e tu [és] atormentado.
26. E, além de tudo isto, um grande abismo está posto entre nós e vós, para os que quisessem passar daqui para vós não possam; nem também os daí passarem para cá.
27. E disse ele:
Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai.
28. Porque tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho; para que também não venham para este lugar de tormento.
29. Disse-lhe Abraão:
Eles têm a Moisés e aos profetas, ouçam-lhes.
30. E ele disse:
Não, pai Abraão; mas se alguém dos mortos fosse até eles, eles se arrependeriam.
31. Porém [Abraão] lhe disse:
Se não ouvem a Moisés e aos profetas, também não se deixariam convencer, ainda que alguém ressuscite dos mortos.




16.8 elogiou o injusto mordomo, por ter feito prudentemente. Não é a desonestidade do mordomo que é elogiada, mas a sua prudência. Ele, mesmo sendo mundano, foi astuto, ao diminuir a quantia da dívida e garantir para si amigos que poderiam ajudá-lo depois da sua demissão. Jesus critica os “filhos da luz” (v.8) que não agem com a mesma esperteza, pois neste mundo de trevas somos enviados como “cordeiros no meio de lobos” (Lc.10:3), e por isso temos que ser “astutos como a serpente” (Mt.10:16). Nós não temos que agir desonestamente como eles fazem, mas devemos agir com esperteza dentro dos limites da ética. Neste sentido, nós não devemos ser como crianças (1Co.3:1; 13:11), que são facilmente convencidas pelos adultos acerca de qualquer coisa que lhes é oferecida como sendo a verdade. Por isso Paulo pede que “não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro” (Ef.4:14). Nós devemos ser puros como as crianças, mas ao mesmo tempo astutos como a serpente (Mt.10:16), bem prevenidos contra as “astutas ciladas do maligno” (Ef.6:11).

16.9 fazei amigos para vós com as riquezas da injustiça. I.e, sejam espertos como o mordomo da parábola foi (v. nota anterior). vos recebam nos tabernáculos eternos. Na ressurreição, todos nós nos receberemos mutuamente na glória (v. nota em 2Co.4:14).

16.10 quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito. A máxima que diz que “quem mente também rouba” não passa muito longe disso. A pequena desonestidade é uma semente que pode frutificar e oferecer consequencias maiores. Do ponto de vista moral, aquele que rouba um real do próximo é tão culpado quanto aquele que rouba mil reais, porque em ambos os casos o roubo partiu do desejo maligno e corrupto no coração do homem. Aquele que dá lugar a tais desejos carnais tem a tendência de manter a mesma natureza de desonestidade em coisas maiores. Em contrapartida, aquele que se mantém puro contra os pequenos pecados está se conservando para manter-se fiel nas grandes tentações.

16.13 não podeis servir a Deus e às riquezas. V. nota em Lc.12:34.

16.15 o que é excelente para os seres humanos é odiável diante de Deus. Cristo estava falando das riquezas (v.13), que os fariseus amavam (v.14).

16.16 a Leis e os profetas foram até João. João foi o último profeta do tempo da antiga aliança, e a partir de então estaria inaugurada a nova aliança, aqui chamada de “o Reino de Deus”. todo homem tenta entrar nele pela força. V. nota em Mt.11:12.

16.17 cair um traço de alguma letra da lei. V. nota em Mt.5:17-19 e Mt.5:18.

16.18 Sobre o divórcio, v. nota em Mt.5:32.

16.19-31 A parábola do rico e Lázaro, a exemplo das demais parábolas, não possui meios literais, mas um significado moral implícito na alegoria. Os imortalistas que usam esta parábola como uma evidência de imortalidade da alma mostram desconhecer o próprio significado de parábola, que é “uma narrativa fictícia, onde a natureza e história do reino de Deus são figurativamente retratados” (Strong, 3850). Diversas vezes a Bíblia se utiliza de personificação de personagens inanimados em parábolas, como nas duas ocasiões em que parábolas envolvem árvores conversando umas com as outras (Jz.9:8-15; 2Rs.14:9). Isso obviamente não significa que as árvores realmente falem, mas somente que elas “ganharam vida” na parábola para alegoricamente ilustrar alguma lição moral ou objetivo que o autor teve ao retratá-las. Isso é o mesmo que ocorre aqui, pois inúmeros elementos textuais mostram que esta também é uma parábola, e que, consequentemente, deve ser interpretada como as demais parábolas – não com meios literais, mas com uma lição moral.

Primeiro, é dito que o rico tinha língua (v.24) e que Lázaro tinha dedo (v.24), o que mostra que eles não eram “espíritos” incorpóreos, mas estavam no Hades em forma corporal. Obviamente Jesus não cometeu um descuido e colocou os personagens corporalmente no Hades por engano, mas somente estava fazendo uso de uma alegoria, a exemplo das árvores falantes (Jz.9:8-15; 2Rs.14:9), cujo relato em nada necessita de uma interpretação literal, precisamente por se tratar de uma parábola. Segundo, é nos dito que o rico tinha sede (v.24), que é uma característica do corpo, e não de um espírito fluídico e imaterial (os anjos, por exemplo, não sentem sede e nem precisam de água!). Terceiro, dificilmente o rico e Abraão conseguiriam se comunicar com um “grande abismo” (v.26) entre eles, se o rico estivesse queimando nas chamas de um fogo literal, em meio a gritos de milhões de impenitentes que supostamente ali estariam. Quarto, dificilmente alguém que está literalmente queimando entre as chamas de um fogo verdadeiro consegue manter concentração, conversar naturalmente, visualizar e distinguir pessoas a uma longa distância, ouvir e responder como se nada estivesse acontecendo. Quinto, o pedido do rico seria inútil caso ele estivesse de fato queimando em algum lugar, pois uma gota de água não iria apagar as chamas de fogo que ali estavam, e de nada adiantaria se aquelas chamas fossem eternas, inapagáveis. Sexto, de nada adiantaria molhar a língua (v.24), se o resto do corpo inteiro está queimando. Alguém que está tendo seu corpo inteiro queimando irá se preocupar com o corpo que está queimando, e não com a língua. Sétimo, se o relato é literal, então devemos crer que é (ou era) possível que os salvos no Céu conversem e mantenham contato natural com os ímpios que estão queimando no inferno. Experimente pensar na ideia de chegar ao Céu e dali ver seus parentes não-convertidos queimando horrivelmente do outro lado, e pior, podendo conversar com eles assim como faziam na terra!

No fundo, os próprios imortalistas não levam a sério seu próprio argumento, pois nem eles mesmos consideram reais todos os elementos descritos na parábola. Assim como Calvino fez rejeitando a depravação parcial baseada no relato do homem “meio morto” de Lc.10:30 (v. nota) por se tratar dos meios de uma parábola que não deve ser interpretada literalmente, nós também concluímos que uma interpretação literal dos meios da parábola de Lc.16:19-31 violenta completamente o bom senso e a boa exegese bíblica, que nuncase baseou em meios de parábolas para fundamentar doutrina nenhuma. A finalidade (lição moral) da parábola nunca foi ensinar um estado intermediário, mas mostrar que a incredulidade dos fariseus era tanta que nem mesmo se um morto ressuscitasse (como Jesus já havia feito com Lázaro) eles iriam crer em Cristo (v.31).  

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