20 de julho de 2014

Comentários de Marcos 14

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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
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1. E dali a dois dias era a Páscoa, e [a festa dos pães] asmos; e os chefes dos sacerdotes, e os escribas buscavam um meio de prendê-lo através de engano, e [o] matarem.
2. Diziam, porém: Não na festa, para que não venha a haver tumulto entre o povo.
3. E estando ele em Betânia, em casa de Simão o Leproso, sentado [à mesa], veio uma mulher, que tinha um vaso de alabastro, de óleo perfumado de nardo puro, de muito preço, e quebrando o vaso de alabastro, derramou-o sobre a cabeça dele.
4. E houve alguns que se irritaram em si mesmos [com aquilo], e disseram: Para que foi feito este desperdício do óleo perfumado?
5. Porque isto podia ter sido vendido por mais de trezentos dinheiros, e seria dado aos pobres. E reclamavam contra ela.
6. Porém Jesus disse: 
Deixai-a; por que a incomodais? Ela tem me feito boa obra.
7. Porque pobres sempre [os] tendes convosco; e quando quiserdes, podeis lhes fazer bem; porém a mim, nem sempre me tendes.
8. Esta fez o que podia; se adiantou para ungir meu corpo, para [preparação de minha] sepultura.
9. Em verdade vos digo, que onde quer que em todo o mundo este Evangelho for pregado, também o que esta fez será dito em sua memória.
10. E Judas Iscariotes, um dos doze, foi aos chefes dos sacerdotes, para o entregar a eles.
11. E eles ouvindo, alegraram-se; e prometeram lhe dar dinheiro; e buscava como o entregaria em tempo oportuno.
12. E o primeiro dia dos [pães] asmos, quando sacrificavam [o cordeiro da] Páscoa, seus discípulos lhe disseram: 
Onde queres, que vamos preparar para comerdes a Páscoa?
13. E mandou dois de seus discípulos, e disse-lhes: 
Ide à cidade, e um homem que leva um cântaro de água vos encontrará, a ele segui.
14. E onde quer que ele entrar, dizei ao senhor da casa: 
O Mestre diz: 
Onde está o cômodo onde comerei Páscoa com meus discípulos?
15. E ele vos mostrará um grande salão, ornado e preparado; ali preparai [a ceia] para nós.
16. E seus discípulos saíram, e vieram à cidade, e acharam como lhes tinha dito, e prepararam a Páscoa.
17. E vinda a tarde, veio com os doze.
18. E quando se sentaram [à mesa], e comeram, Jesus disse: 
Em verdade vos digo, que um de vós, que está comendo comigo, me trairá.
19. E eles começaram a se entristecer, e a lhe dizer um após outro: 
Por acaso sou eu? 
E outro: 
Por acaso sou eu?
20. Porém respondendo ele, disse-lhes: 
[É] um dos doze, o que está molhando [a mão] comigo no prato.
21. Em verdade o Filho do homem vai, como está escrito sobre ele; mas ai daquele homem, por quem o Filho do homem é traído; bom lhe fosse ao tal homem não haver nascido.
22. E comendo eles, tomou Jesus o pão; e bendizendo partiu-o, e deu-lhes, e disse: 
Tomai, comei, isto é o meu corpo.
23. E tomando o copo, e dando graças, deu-lhes; e todos beberam dele.
24. E disse-lhes: 
Isto é o meu sangue, [o sangue] do novo testamento, que é derramado por muitos.
25. Em verdade vos digo, que não beberei mais do fruto da vide, até aquele dia, quando o beber novo no Reino de Deus.
26. E cantando um hino, saíram para o monte das Oliveiras.
27. E Jesus lhes disse: 
Todos vós vos ofendereis em mim esta noite; porque está escrito: 
Ferirei ao pastor, e as ovelhas serão dispersas.
28. Mas depois de eu haver ressuscitado, irei adiante de vós para a Galileia.
29. E Pedro lhe disse: 
Ainda que todos se ofendam, não porém eu.
30. E disse-lhe Jesus: 
Em verdade te digo, que hoje, nesta noite, antes que o galo cante duas vezes, me negarás três vezes.
31. Mas ele muito mais dizia: 
Ainda que me seja necessário morrer contigo, em maneira nenhuma te negarei. 
E todos diziam também da mesma maneira.
32. E vieram ao lugar, cujo nome era Getsêmani, e disse a seus discípulos: 
Sentai-vos aqui, enquanto eu oro.
33. E tomou consigo a Pedro, e a Tiago, e a João, e começou a se apavorar, e a angustiar-se em grande maneira.
34. E disse-lhes: 
Minha alma totalmente está triste até a morte; ficai-vos aqui, e vigiai.
35. E indo-se um pouco mais adiante, prostrou-se em terra; e orou, que se fosse possível, passasse dele aquela hora.
36. E disse: 
Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; passa de mim este copo; porém não [se faça] o que eu quero, mas sim o que tu [queres].
37. Então veio, e os achou dormindo; e disse a Pedro: 
Simão, estás dormindo? Não podes vigiar uma hora?
38. Vigiai, e orai, para que não entreis em tentação; o espírito em verdade [está] pronto, mas a carne [é] fraca.
39. E indo novamente, orou, dizendo as mesmas palavras.
40. E voltando, achou-os outra vez dormindo; porque seus olhos estavam pesados, e não sabiam o que lhe responder.
41. E veio a terceira vez, e disse-lhes: 
Dormi já e descansai. Basta, vinda é a hora. Eis que o Filho do homem é entregue em mãos dos pecadores.
42. Levantai-vos, vamos; eis que o que me trai está perto.
43. E logo, falando ele ainda, veio Judas, que era um dos doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e bastões, da parte dos chefes dos sacerdotes, e dos escribas, e dos anciãos.
44. E o que o traía lhes tinha dado um sinal comum, dizendo: 
Ao que eu beijar, é esse; prendei-o, e levai-o em segurança.
45. E quando veio, logo foi-se a ele, e disse-lhe: 
Rabi, Rabi, 
e o beijou.
46. E lançaram suas mãos nele, e o prenderam.
47. E um dos que estavam presentes ali puxando a espada, feriu ao servo do sumo sacerdote, e cortou-lhe a orelha.
48. E respondendo Jesus, disse-lhes: 
Como a assaltante, com espadas e bastões, saístes para me prender?
49. Todo dia convosco estava no Templo ensinando, e não me prendestes; mas [assim se faz] para que as Escrituras se cumpram.
50. Então, deixando-o, todos fugiram.
51. E um certo rapaz o seguia, envolto em um lençol sobre o [corpo] nu. E os rapazes o seguraram.
52. E ele, largando o lençol, fugiu deles nu.
53. E levaram Jesus ao sumo sacerdote; e juntaram-se a ele todos os chefes dos sacerdotes, e os anciãos, e os escribas.
54. E Pedro o seguiu de longe até dentro da sala do sumo sacerdote, e estava sentado juntamente com os trabalhadores, e esquentando-se ao fogo.
55. E os chefes dos sacerdotes, e todo o tribunal buscavam [algum] testemunho contra Jesus, para o matarem, e não [o] achavam.
56. Porque muitos testemunhavam falsamente contra ele; mas os testemunhos não concordavam entre si.
57. E levantando-se uns testemunhava falsamente contra ele, dizendo:
58. Nós o ouvimos dizer: 
Eu derrubarei este templo feito de mãos, e em três dias edificarei outro, feito sem mãos.
59. E nem assim era o testemunho deles concordante.
60. E levantando-se o sumo sacerdote no meio, perguntou a Jesus, dizendo: 
Não respondes nada? Que testemunham estes contra ti?
61. Mas ele calava, e nada respondeu. O sumo sacerdote voltou a lhe perguntar, e disse-lhe: 
Tu és o Cristo, o Filho do [Deus] bendito?
62. E Jesus disse: 
Eu sou; e vereis ao Filho do homem sentado à direita do poder [de Deus], e vir nas nuvens do céu.
63. E o sumo sacerdote, rasgando suas roupas, disse: 
Para que mais necessitamos de testemunhas?
64. Tendes ouvido a blasfêmia; que vos parece? 
E todos o condenaram por culpado de morte.
65. E alguns começaram a cuspir nele, e a cobrir-lhe o rosto; e a dar-lhe de socos, e dizer-lhe: Profetiza. 
E os trabalhadores lhe davam bofetadas.
66. E estando Pedro embaixo na sala, veio uma das servas do sumo sacerdote;
67. E vendo a Pedro, que se sentava esquentando, olhou para ele, e disse: 
Também tu estavas com Jesus o Nazareno.
68. Mas ele o negou, dizendo: 
Não [o] conheço, nem sei o que dizes: 
E saiu-se fora ao alpendre; e cantou o galo.
69. E a serva vendo-o outra vez, começou a dizer aos que ali estavam: 
Este é um deles.
70. Mas ele o negou outra vez. E pouco depois disseram os que ali estavam outra vez a Pedro: Verdadeiramente tu és um deles; pois também és galileu, e tua fala é semelhante.
71. E ele começou a amaldiçoar e a jurar, [dizendo]: 
Não conheço a esse homem que dizeis.
72. E o galo cantou a segunda vez. E Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe tinha dito: 
Antes que o galo cante duas vezes, tu me negarás três vezes. 
E retirando-se dali, chorou.




14.4 alguns. V. nota em Mt.26:8.

14.7 pobres sempre os tendes convosco. V. nota em Mt.26:11.

14.11 prometeram lhe dar dinheiro. Trinta moedas de prata (v. nota em Mt.26:15). em tempo oportuno. Em secreto, longe da presença das multidões que o seguiam (Mc.12:12).

14.21 como está escrito sobre ele. V. nota em Mt.26:24.

14.22 isto é o meu corpo. O pão da Ceia representa o corpo de Cristo, mas não se transforma literalmente no corpo dele. Jesus também afirmou: “eu sou o caminho” (Jo.14:6), mas nem por isso se transformou fisicamente numa estrada a ser trilhada por seus ouvintes. Ele igualmente declarou: “eu sou a luz do mundo” (Jo.9:25), mas nem por isso se transformou literalmente num grande farol a emitir luz para o mundo inteiro. Ele também exclamou: “eu sou a videira verdadeira” (Jo.15:1), mas nem por isso se transformou em uma árvore. E ele também disse: “eu sou a porta” (Jo.10:9), mas sem se transformar em um pedaço de madeira com maçaneta. Há que se entender essas expressões em sentido espiritual, como Jesus disse em João 6:63 (v. nota), logo depois de falar sobre o mesmo assunto. A Bíblia claramente diz que os céus estão contendo Jesus até os tempos da restauração de tudo (At.3:21), e proíbe beber sangue (At.15:59) – o que mostra que os discípulos não entendiam as palavras de Jesus em sentido literal, como se o vinho se transformasse substancialmente em sangue. As Escrituras também condenam comer carne humana (canibalismo), e seria uma contradição e um contrassenso se a Ceia fosse precisamente isso: comer carne humana (a de Cristo). Se aquele pão fosse o próprio corpo de Cristo, chegaríamos à infeliz conclusão de que Jesus segurava o seu próprio corpo em mãos durante a Ceia, e que bebeu a si mesmo ao tomar o cálice (v.25).

É o literalismo exacerbado em torno dessas palavras de Cristo que leva a absurdos como os presentes no Concílio de Trento, onde é dito que os fieis comem “o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Cristo” (D 883), e que o corpo de Cristo permanece literalmente na hóstia mesmo depois do uso – incluindo as que sobram da comunhão (D 886). A consequencia destes ensinos distorcidos se vê neste mesmo concílio, onde é afirmado que “se um padre se sentir mal durante a celebração da missa e vomitar a hóstia, deve engolir o que pôs para fora”, e que “se uma hóstia se partir em pedaços... [e uma] parte cair no altar, o lugar deve ser lambido com a língua” (D 876). Como o padre Chinquini observou, na teologia católica até ratos podem comer Deus: “No Canadá, o jovem padre Daule descuidou de umas hóstias, e, horrorizado, viu ratos devorando-as! – Correu em direção ao bispo exclamando: ‘Os ratos comeram nosso bom Deus!’" (citado pelo padre Chinquini em sua biografia, p. 334). Absurdos como esses seriam evitados caso o sentido real das palavras de Cristo fosse preservado, longe de tal literalismo exagerado e incoerente.

14.26 cantando um hino. V. nota em Mt.26:30.

14.29 ainda que todos se ofendam, não porém eu. V. nota em Mt.26:35.

14.33 começou a se apavorar, e a angustiar-se em grande maneira. V. nota em Mt.26:41.

14.34 minha alma totalmente está triste. Se até Jesus ficou triste, isso mostra que é normal que um cristão se entristeça, ao contrário da teologia triunfalista onde a tristeza é coisa do diabo e de quem “abriu brecha” (está no pecado). vigiai. V. nota em Mt.26:38.

14.35 se fosse possível. V. nota em Mt.26:39.

14.36 este copo. Este cálice. O cálice era uma figura do sofrimento que Cristo passaria e que seus seguidores (os cristãos) também (Mt.20:22-23).

14.38 vigiai e orai, para que não entreis em tentação. V. nota em Mt.26:41.

14.38 o espírito em verdade está pronto, mas a carne é fraca. V. nota em Mt.26:41.

14.47 um dos. V. nota em Mt.26:51.

14.51 um certo rapaz. Segundo a tradição, este rapaz era o próprio Marcos, autor deste evangelho. O fato de só ser citado aqui e em um contexto onde tal citação seria totalmente desnecessária corrobora com o fato, como se Marcos quisesse registrar sua presença no evangelho e por isso incluiu este registro mesmo em um contexto onde tal registro poderia perfeitamente ter sido evitado sem implicar em qualquer prejuízo ao relato maior da crucificação.

14.58 eu derrubarei este templo. V. nota em Mt.26:61.

14.62 vir nas nuvens do céu. V. nota em Lc.21:27.

14.65 profetiza. Ironicamente, dizendo para Jesus profetizar sobre quem estava lhe ferindo a face, enquanto ele estava com os olhos vendados.

14.70 tua fala é semelhante. V. nota em Mt.26:73.

14.71 começou a amaldiçoar. V. nota em Mt.26:74.

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