15 de julho de 2014

Comentários de Mateus 16

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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
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1. E os fariseus e os saduceus a ele, tendo chegado até ele para tentá[-lo], pediram-lhe que lhes mostrasse algum sinal do céu.
2. Mas ele respondendo, disse-lhes: 
Quando a tarde já é vinda, dizeis: 
Bom tempo, porque o céu está vermelho.
3. E pela manhã: 
Hoje [haverá] tempestade, porque o céu está vermelho triste. 
Hipócritas, vós bem sabeis fazer diferença na face do céu, mas nos sinais dos tempos não podeis?
4. Uma geração má e adúltera pede sinal; e não lhe será dado sinal, a não ser o sinal do profeta Jonas. 
E deixando-os, foi embora
5. E vindo seus discípulos para a outra margem, tinham se esquecido de tomar pão [consigo].
6. E Jesus lhes disse: 
Ficai atentos, e tomai cuidado com o fermento dos fariseus e saduceus.
7. E eles argumentavam entre si, dizendo: 
[Isto] é porque não tomamos pão.
8. E Jesus, percebendo, disse-lhes: 
Por que argumentais entre vós mesmos, [homens] de pouca fé, que não tomastes pão?
9. Não entendeis ainda, nem vos lembrais dos cinco pães dos cinco mil [homens], e quantas cestas levantastes?
10. Nem dos sete pães dos quatro mil, e quantos cestos levantastes?
11. Como não entendeis que eu não vos disse por causa do pão para tomardes cuidado com o fermento dos Fariseus e Saduceus?
12. Então entenderam que ele não tinha dito para tomarem cuidado com o fermento do pão, mas sim com a doutrina dos fariseus e saduceus.
13. E Jesus, tendo vindo às regiões da Cesareia de Filipe, perguntou a seus discípulos, dizendo: 
Quem as pessoas dizem que eu, o Filho do homem, sou?
14. E eles disseram: 
Alguns João Batista, e outros Elias, e outros Jeremias, ou algum dos profetas.
15. Ele lhes disse: 
E vós, quem dizeis que eu sou?
16. E Simão Pedro, respondendo, disse: 
Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente.
17. E Jesus, respondendo, disse-lhe: 
Bem-aventurado és tu, Simão Bar-Jonas; porque não foi carne e sangue que o revelou a ti, mas sim meu Pai, que [está] nos céus.
18. E também eu te digo, que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja; e as portas do mundo dos mortos não prevalecerão contra ela.
19. E a ti te darei as chaves do Reino dos céus; e tudo o que ligares na terra, será ligado nos céus; e tudo o que desligares na terra, será desligado nos céus.
20. Então mandou a seus discípulos que a ninguém dissessem que ele era Jesus o Cristo.
21. Desde então Jesus começou a mostrar a seus discípulos que ele devia ir a Jerusalém, e sofrer muito pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes, e pelos escribas, e ser morto, e ser ressuscitado ao terceiro dia.
22. E Pedro, tomando-o consigo, começou a repreendê-lo, dizendo: 
Senhor, [tem] compaixão de ti [mesmo]; de maneira nenhuma te aconteça isto.
23. Porém ele, virando-se, disse a Pedro: 
Afasta-te para trás de mim, Satanás, tu me és ofensa, porque não compreendes as coisas de Deus, mas sim as dos homens.
24. Então Jesus disse a seus discípulos: 
Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome sobre si a sua cruz, e siga-me.
25. Porque qualquer um que quiser salvar sua vida a perderá; porém qualquer um que por causa de mim perder sua vida, a achará.
26. Pois que proveito há para alguém, se obtivesse o mundo todo, e perdesse sua alma? Ou que dará alguém em resgate de sua alma?
27. Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai com seus anjos; e então recompensará a cada um segundo suas obras.
28. Em verdade vos digo, que há alguns dos que aqui estão, que não experimentarão a morte, até que vejam o Filho do homem vir em seu Reino.





16.4 o sinal do profeta Jonas. Assim como Jonas ficou três dias e três noites no ventre do grande peixe e depois saiu, Jesus ficaria três dias e três noites na sepultura e depois sairia (Mt.12:40). O sinal, portanto, era a ressurreição de Jesus.

16.18 esta pedra. A confissão de Pedro no v.16, de que Cristo é o Filho do Deus vivo. No grego, o pronome traduzido por “esta” (taute) também pode ter o sentido de “aquela” (Strong, 5026), fazendo referência ao objeto mais próximo ou ao mais distante, como também ocorre em várias ocasiões no NT (At.7:17-19; 4:10-11; 1Jo.2:22). O que define se a referência é ao objetivo mais próximo (Pedro) ou ao mais distante (a confissão de fé de Pedro em Jesus) é o fato de que taute é um demonstrativo feminino, seguido de petra, um substantivo feminino. Isso obviamente nos leva a crer que a referência não era a Pedro (Petrus, que é masculino), mas está relacionado a algum feminino mais remoto (no caso, a confissão de fé no v.16). Se a referência fosse a Pedro, Mateus poderia ter empregado o demonstrativo no singular masculino, que é touton, e no lugar do femininopetra colocado o masculino Petrus (“sobre este Pedro”), ou mesmo “sobre ti” (epi se), que também evitaria a aplicação de um demonstrativo feminino relacionado a um sujeito masculino, o que é totalmente anti-gramatical. Além disso, deve-se observar que a grande maioria dos léxicos em grego diferenciam o significado de Petrus com petra, este último significando uma “rocha firme”, enquanto aquele sendo um “fragmento de pedra” (v. apêndice 1).

Por toda a Bíblia há a menção de que a pedra é a confissão de Pedro (que remete a Cristo). Paulo disse que “ninguém pode lançar outro fundamento além do que já foi posto, o qual é Cristo Jesus” (1Co.3:11). Em suas epístolas ele disse seis vezes que Jesus era a pedra (1Co.3:11; 10:4; Rm.9:32; 9:33; Ef.2:20; Cl.2:6-7). Cristo também disse que ele é a pedra de esquina (Mc.12:10; Mt.21:42), e o próprio Pedro admitiu que a pedra em questão é Jesus (At.4:11), aplicando o mesmo substantivo petra para se referir a Cristo, e se colocando junto aos demais cristãos como “pedras vivas” (secundárias) edificadas sobre a rocha principal (1Pe.2:4-7). Pedro não podia ser o fundamento, porque Paulo disse que ele era uma “coluna” (Gl.2:9), que difere do fundamento, pois está sobre o fundamento. Pedro nem ao menos era a única coluna ou a principal, pois dividia lugar com João e Tiago, este sendo mencionado por primeiro, antes de Pedro (Gl.2:9).

A Igreja é comparada a um Corpo (Cl.2:17; 1Co.12:27; 1Co.12:12; Ef.5:23; Ef.3:6) e a um edifício (Ef.2:20; 1Co.3:10,11). Esse Corpo é de Cristo, e esse edifício (Igreja) também (Cl.2:17; 1Co.10:32). E a Cabeça (i.e, o principal, o mais importante) do Corpo é Cristo (Ef.4:15), assim como o fundamento (base, pedra angular) do edifício que é a Igreja é Cristo (1Co.3:11). Por isso Pedro não é a Cabeça e nem o fundamento, da mesma forma que a Igreja é chamada de Igreja de Cristo e o corpo é chamado de Corpo de Cristo, e não de corpo ou Igreja de Pedro. Como estamos falando da mesma coisa (a Igreja) nos dois casos, a analogia deve ter o mesmo significado em ambos. Se Pedro fosse o fundamento da Igreja, onde ela está edificada, então ele seria a Cabeça do Corpo, e não Cristo (Ef.4:15). Consequentemente, não faríamos parte da Igreja de Cristo nem do Corpo de Cristo, mas do de Pedro. Tudo isso nos mostra que, da mesma forma que Cristo é a única Cabeça do Corpo e todos os demais (incluindo Pedro) são membros deste corpo, Cristo é o único fundamento da Igreja (1Co.3:11) e todos nós (incluindo Pedro) somos pedras secundárias edificadas sobre a pedra viva, que é Cristo (1Pe.2:4-7).

Em adição a tudo isso, há o silêncio dos evangelhos sinópticos, que relatam a confissão de fé de Pedro (Mc.8:27-30; Lc.9:18-21), mas não falam nada sobre a declaração posterior (“sobre esta pedra”), o que mostra que o principal era a confissão (que foi mencionada nos três evangelhos), e não o que veio depois (que foi mencionado apenas em um). Se o foco da passagem estivesse no v.18 e na pessoa de Pedro, seria imprescindível que Marcos e Lucas relatassem o que seria o mais importante, ao invés de omitirem essa parte e relatarem apenas aquilo que tinha “menor valor”. Eles omitiram pela única e simples razão de que a pedra já havia sido relatada – no v.16 – e, portanto, não deixaram a “pedra” como uma incógnita. Afinal, eles não iriam mencionar algo que seria somente uma “introdução” para algo maior, deixando de lado o mais importante, que para os papistas é o v.18.

[Para mais detalhes, observações e refutações (inclusive sobre o aramaico de Mt.16:18) sugiro a leitura de meu livro “A História não contada de Pedro”].

16.18 as portas do mundo dos mortos não prevalecerão contra ela. A Igreja (ekklesia) no sentido bíblico, como a reunião dos verdadeiros cristãos que adoram a Deus em espírito e em verdade, não seria derrotada pelas portas do Hades. Nunca adoradores sinceros deixaram de existir, mesmo quando haviam apenas sete mil joelhos que não caíram na idolatria (1Rs.19:18; Rm.11:4), quando todos os demais se desviaram. A apostasia geral não implica na falta de um remanescente fiel. Cristo não estava falando da Igreja enquanto instituição religiosa (como advogam a Ortodoxa e a Romana), pois o significado de ekklesia nunca esteve relacionado a instituições ou denominações, sejam elas quais forem (v. nota em Rm.16:5), mas remete aos próprios cristãos sinceros, o remanescente.

16.19 chaves do Reino dos céus. V. nota em Mt.18:18.

16.23 porque não compreendes as coisas de Deus. Pedro, ao não compreender as coisas de Deus naquela ocasião, mostrava desde aquele momento que não era infalível. Ele chegou a negar Jesus três vezes e a ser repreendido severamente por Paulo, publicamente (v. nota em Gl.2:11).

16.24 tome a sua cruz. V. nota em Lc.9:23.

16.27 recompensará a cada um segundo suas obras. Não é a salvação que é pelas obras, mas a recompensa que segue a justificação pela fé (v. nota em Ef.2:8-9).

16.28 que não experimentarão a morte até que vejam o Filho do homem vir em seu Reino. Provável referência a João, que de fato viu a volta de Jesus em uma visão que Deus lhe deu na ilha de Patmos, antes de escrever o Apocalipse (Ap.1:7). Outros comentaristas observam que a referência diz respeito ao acontecimento descrito na sequencia, quando Pedro, Tiago e João viram Jesus, Elias e Moisés no monte da transfiguração, o que seria uma manifestação visível do Reino de Deus na terra naquele momento.

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