15 de julho de 2014

Comentários de Mateus 27

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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
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1. E vinda a manhã, juntamente tomaram conselho todos os chefes dos sacerdotes, e anciãos do povo, contra Jesus, para o matarem.
2. E o levaram amarrado, e o entregaram a Pôncio Pilatos, o governador.
3. Então Judas, o que o havia traído, vendo que já estava condenado, voltou, arrependido, as trinta [moedas] de prata aos chefes dos sacerdotes, e aos anciãos;
4. Dizendo: 
Pequei, traindo o sangue inocente. 
Porém eles disseram: 
Que [interessa isso] a nós? Vê-o tu.
5. E lançando ele as [moedas] de prata no Templo, partiu-se, e foi, e enforcou-se.
6. E os chefes dos sacerdotes, tomando as [moedas] de prata, disseram: 
Não é lícito pô-las na arca das ofertas, porquanto preço de sangue é.
7. E tomando conselho juntamente, compraram com elas o campo do Oleiro, para sepultura dos estrangeiros.
8. Pelo que aquele campo foi chamado campo de sangue, até o dia de hoje.
9. Então se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias, que disse: 
E tomaram as trinta [moedas] de prata, preço avaliado pelos filhos de Israel, ao qual eles avaliaram.
10. E as deram pelo campo do Oleiro, segundo o que me mandou o Senhor.
11. E Jesus esteve diante do governador, e o governador perguntou-lhe, dizendo: 
És tu o Rei dos Judeus? e Jesus lhe disse: Tu [o] dizes.
12. E sendo acusado pelos chefes dos sacerdotes e os anciãos, nada respondeu.
13. Pilatos então lhe disse: 
Não ouves quantas [coisas] testemunham contra ti?
14. E não lhe respondeu nem uma só palavra, de maneira que o governador se maravilhava muito.
15. E na festa costumava o governador soltar um preso ao povo, qualquer que quisessem.
16. E tinham então um preso bem conhecido, chamado Barrabás.
17. Juntos pois eles, disse-lhes Pilatos: 
Qual quereis que vos solte? A Barrabás, ou a Jesus, que é chamado Cristo?
18. Porque sabia que por inveja o entregaram.
19. E estando ele sentado no tribunal, sua mulher enviou a ele, dizendo: 
Nada [faças] tu com aquele justo; porque hoje sofri muitas coisas em sonhos por causa dele.
20. Mas os chefes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram às multidões que pedissem a Barrabás, e a Jesus matassem.
21. E respondendo o governador, disse-lhes: 
Qual destes dois quereis que vos solte? 
E eles disseram:
A Barrabás.
22. Pilatos lhes disse: 
Que pois farei [de] Jesus, que é chamado Cristo? 
Disseram-lhe todos: 
Seja crucificado.
23. Porém o governador disse: 
Pois que mal tem feito? 
E eles clamavam mais, dizendo: 
Seja crucificado!
24. Vendo pois Pilatos que nada aproveitava, antes se fazia mais tumulto, tomando água, lavou as mãos diante da multidão, dizendo: 
Inocente estou do sangue deste justo; vede-o vós.
25. E respondendo todo o povo, disse: 
Seu sangue [venha] sobre nós, e sobre nossos filhos.
26. Então soltou-lhes a Barrabás; porém havendo açoitado a Jesus, o entregou para ser crucificado.
27. Então os soldados do governador, levando a Jesus consigo ao salão do pretório, reuniram-se a ele toda a agrupamento de soldados.
28. E despindo-o, cobriram-no com uma capa vermelha.
29. E tecendo uma coroa de espinhos, puseram-na sobre a sua cabeça, e uma cana em sua [mão] direita, e pondo-se de joelhos diante dele, zombavam dele, dizendo: 
Tenhas alegria, Rei dos Judeus!
30. E cuspindo nele, tomaram a cana, e davam-lhe [com ela] na cabeça.
31. E depois que o haviam escarnecido, despiram-lhe a capa, e o vestiram com suas roupas, e o levaram para crucificar.
32. E saindo, acharam a um homem de Cirene, por nome Simão; a este obrigaram para que levasse sua cruz.
33. E chegando ao lugar chamado Gólgota, que se diz o lugar da Caveira,
34. Deram-lhe a beber vinagre misturado com fel; e experimentando[-o], não [o] quis beber.
35. E havendo-o crucificado, repartiram suas roupas, lançando sortes; para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta: 
Repartiram entre si minhas roupas, e sobre minha túnica lançaram sortes.
36. E tendo se sentando, vigiavam-no ali.
37. E puseram por cima de sua cabeça, sua causa escrita: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS.
38. Então foram crucificados com ele dois ladrões, um à direita, e outro à esquerda.
39. E os que passavam, blasfemavam dele, balançando suas cabeças;
40. E dizendo: 
Tu, que derrubas o Templo, e em três dias [o] reedificas, salva a ti mesmo! Se és Filho de Deus, desce da cruz.
41. E da mesma maneira também os chefes dos sacerdotes, com os escribas, e anciãos, escarnecendo [dele], diziam:
42. A outros salvou, a si mesmo não pode salvar. Se é Rei de Israel, desça agora da cruz, e creremos nele.
43. Confiou em Deus, livre-o agora, se [bem] lhe quer; porque disse: 
Sou Filho de Deus.
44. E também lhe insultavam os ladrões que com ele estavam crucificados.
45. E desde a hora sexta, houve trevas sobre toda a terra até a hora nona.
46. E perto da hora nona clamou Jesus com grande voz, dizendo: 
ELI, ELI, LAMÁ SABACTÂNI; 
Isto é: 
Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?
47. E alguns dos que ali estavam, ouvindo[-o], diziam: Este chama a Elias.
48. E logo correndo um deles, tomou uma espada, e enchendo[-a] de vinagre, pô-la em uma cana, e dava-lhe de beber.
49. Porém os outros diziam: 
Deixa, vejamos se Elias vem para livrá-lo.
50. E Jesus clamando outra vez com grande voz, deu o espírito.
51. E eis que o véu do Templo se rasgou em dois, de cima até baixo, e a terra tremeu, e as pedras se fenderam.
52. E os sepulcros se abriram, e muitos corpos de santos, que dormiram, foram ressuscitados.
53. E saídos dos sepulcros, depois de sua ressurreição, vieram à santa cidade, e apareceram a muitos.
54. E o centurião, e os que com ele vigiavam a Jesus, vendo o terremoto, e as coisas que haviam sucedido, temeram em grande maneira, dizendo: 
Verdadeiramente Filho de Deus era este.
55. E estavam ali muitas mulheres olhando de longe, as quais desde a Galileia haviam seguido a Jesus, servindo-o.
56. Entre as quais estava Maria Madalena, e Maria mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.
57. E vinda já a tarde, veio um homem rico de Arimateia, por nome José, o qual também era discípulo de Jesus.
58. Este chegou a Pilatos, e pediu o corpo de Jesus. Então Pilatos mandou que o corpo [se lhe] desse.
59. E tomando José o corpo, embrulhou-o em um lençol limpo fino, 
60. E o pôs em seu sepulcro novo, que tinha lavrado em uma rocha; e revolvendo uma grande pedra à porta do sepulcro, foi embora.
61. E estava ali Maria Madalena, e a outra Maria, sentadas de frente ao sepulcro.
62. E no dia seguinte, que é depois da preparação, reuniram-se os chefes dos sacerdotes, e os fariseus a Pilatos,
63. Dizendo: 
Senhor, nos lembramos que aquele enganador, enquanto ainda vivia, disse: 
Depois de três dias serei ressuscitado.
64. Manda pois que o sepulcro esteja em segurança até o dia terceiro, para que não aconteça de seus discípulos virem de noite, e o furtem, e digam ao povo que ele ressuscitou dos mortos; e [assim] o último engano será pior que o primeiro.
65. E Pilatos lhes disse: 
Vós tendes a guarda; ide, fazei segurança como o entendeis.
66. E eles, tendo ido, fizeram segurança no sepulcro com a guarda, selando a pedra.



27.2 o entregaram a Pôncio Pilatos. Como os judeus não tinham autorização do império romano para condenar alguém à pena de morte, eles tiveram que entregar Jesus a Pilatos, o governador romano, que poderia fazer isso por eles.

27.3 voltou, arrependido. O arrependimento de Judas difere-se do arrependimento de Pedro. O arrependimento de Pedro gerou uma mudança de vida que resultou em ações da parte dele, que se tornou um dos mais proeminentes missionários no primeiro século da Igreja (1Co.9:5), enquanto o “arrependimento” de Judas o levou ao suicídio, que é um pecado sem volta (1Co.3:17). Em outras palavras, foi um arrependimento sem frutos, que muito mais se parece com a “tristeza segundo o mundo, que produz a morte” (2Co.7:9), como diz Paulo, do que com a “tristeza segundo Deus” (2Co.7:9), que produz “um arrependimento que leva à salvação e não remorso” (2Co.7:9).

27.16 Barrabás. Barrabás era um prisioneiro famoso pelo povo, pois havia participado de uma rebelião (Jo.18:40; Lc.23:19), buscando a liberdade do povo judeu contra os romanos. Assim, o povo preferiu escolher soltar aquele que lhes poderia libertar dos romanos, do que aquele que lhes poderia libertar do pecado. Eles escolheram o Reino físico, no lugar do Reino de Deus; um patriota nacional, ao invés do Salvador do mundo.

27.20 Os chefes dos sacerdotes e os anciãos possuíam grande poder de persuasão, pois aquele que se opusesse a eles poderia ser expulso da comunhão no templo e nas sinagogas (Jo.9:22).

27.24 lavou as mãos. Lavar as mãos era uma forma de se inocentar diante do povo, jogando a responsabilidade para eles. No entanto, Pilatos ainda continuava sendo responsável pela crucificação de Cristo, pois ele tinha autoridade para libertá-lo caso assim quisesse, e sabia que Jesus era inocente (v.18). Mesmo assim, ele decidiu agradar os judeus e fazer o que eles pediam, tentando ao mesmo tempo parecer que não estava contra Jesus. Assim como Pilatos, muitos nos dias de hoje sabem que Deus existe e que Jesus é o Cristo, mas preferem viver uma vida voltada para si mesmos do que para Deus, preferindo seguir o mundo e a voz da multidão. Cristo não quer omissos, que se ausentem do compromisso com Deus e de um posicionamento firme por Ele, mas fieis que sejam por Ele não importa onde estiverem, e contra quem estiverem.

27.25 seu sangue venha sobre nós, e sobre nossos filhos. O cumprimento disso foi o juízo estabelecido sobre os judeus na destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C. Não há nenhuma razão para crer que toda a descendência judaica permanece “amaldiçoada”.

27.32 Depois de ser violentamente açoitado e espancado, Jesus já não tinha nenhuma força para continuar levando uma pesada cruz em suas costas, sendo necessário que um homem dentre a multidão fizesse isso por ele. Contrariando a tradição popular, Simão não se solicitou a carregar a cruz, mas foi forçado a isso pelos soldados romanos, que escolheram aleatoriamente alguém na multidão.

27.33 que se diz o lugar da caveira. V. nota em Mc.15:22.

27.38 dois ladrões, um à direita, e outro à esquerda. O acréscimo “um” não consta nos manuscritos originais em grego, tratando-se de uma adição feita pela maioria dos tradutores para dar sentido à tradição que diz que Jesus esteve crucificado entre dois ladrões. O texto literalmente diz que haviam “dois ladrões, à direita e à esquerda”, o que significa um total de quatro ladrões crucificados com Cristo, dois de cada lado. É por isso que o soldado romano quebrou as pernas do primeiro crucificado, depois chegou ao segundo, e somente depois chegou a Jesus (v. nota em Jo.19:32-33), que era, por conseguinte, o terceiro da esquerda para a direita, ou da direita para a esquerda (dependendo da ordem que o soldado romano escolheu). Isso também explica o porquê que os “ladrões” (no plural) zombavam de Cristo (Mt.27:44), sendo que pelo menos um deles estava em favor de Cristo (Lc.23:39-42).

27.40 e em três dias o reedificas. Quando Jesus disse que o “templo” seria reconstruído em três dias referia-se não ao templo literal em Jerusalém, mas ao templo do seu próprio corpo, que ressuscitaria três dias depois (Jo.2:21).

27.44 os ladrões. V. nota em Mt.27:38.

27.45 hora sexta... até a hora nona. Do meio-dia às três horas da tarde. Este fato histórico incomum foi ressaltado por diversos autores não-cristãos da época, como Talo e Flêgão.

27.46 Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste? V. nota em Mc.15:34.

27.50 deu o espírito. V. nota em At.7:59.

27.51 o véu do templo se rasgou. O véu separava o Lugar Santo e o Santo dos Santos, significando que, agora, nada mais nos separa do contato direto com Deus, pois possuímos livre acesso ao Pai (v. nota em Ef.2:18). Josefo, importante historiador judeu do século I, escreveu dizendo que o véu tinha 18 metros de altura e 12 cm de grossura, e que mesmo se dois cavalos puxassem o véu (um de cada lado) não conseguiriam rasgá-lo. O que homem nenhum poderia fazer, Jesus fez, ao morrer em nosso lugar.

27.53 vieram à cidade santa. Jerusalém (Mt.5:35). apareceram a muitos. Subtende-se que foi um acontecimento real e literal, causando surpresa naqueles que os viram. Embora existam conjecturas sobre quais santos eram esses que ressuscitaram (alguns inclusive mencionam nomes de profetas do AT), a Bíblia silencia a este respeito. O máximo que podemos conjecturar é que eram pessoas que não haviam morrido há muito tempo, pois seus corpos ainda permaneciam relativamente conservados para aparecerem vivos em Jerusalém sem causar um alvoroço total – como se fossem zumbis.

27.56 mãe de Tiago. V. nota em Mc.15:40.

27.64 este engano será pior que o primeiro. O primeiro seria o de que Jesus é o Messias, e o segundo o de que ele ressuscitou.

2 comentários:

  1. Graça e Paz, Lucas! Primeiro: parabéns pelo seu trabalho. Tem muita coisa interessante e profunda espalhada pelos seus sites/blogs. Um trabalho de uma vida!

    Eu fiquei pensando, contudo, em uma questão que talvez tenha até sido respondida em algum lugar, mas achei pertinente que fosse feita aqui, pois se relaciona desde a prisão até a ressurreição de Jesus Cristo.

    Aqui no Brasil, pelo menos, entendemos a Sexta-Feira da Paixão como o dia que representa a crucificação e morte do Nosso Senhor e no domingo de Páscoa a Sua ressurreição.

    Em Mateus 12:40 Jesus disse que "como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra."

    De sexta à domingo são duas noites e três dias. Eu tenho CERTEZA que Jesus cumpriu tudo (e ainda cumprirá), mas será que a nossa cronologia (ocidental) está incoerente?

    Andei pesquisando e PARECE que esses eventos (prisão, julgamento, crucificação e morte) aconteceram em uma quarta, tendo Jesus ressuscitado de sábado para domingo (a explicação mais razoável está aqui, mas não sei se está o suficiente coerente: goo.gl/Dq9kNQ)

    Obrigado e que Jesus continue te abençoando imensamente!

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    1. Olá, Phillip, tudo bem? Houve uma época, há muitos anos atrás, que eu também passei a estudar essa questão do dia da morte e da ressurreição de Jesus, e realmente há alguns bons argumentos para a tese da quarta/sábado. Mas há textos que não se encaixam de jeito nenhum, como o caso de Lucas 24:21, em que os dois discípulos de Emaús diziam que já era o terceiro dia desde a morte de Jesus, e era segunda-feira (Lc 24:1). Isso de modo algum poderia ser ajustado na teoria da morte na quarta, pois nesse caso já teriam se passado quatro dias na nossa contagem, e cinco na contagem dos judeus. Mas na tese tradicional dá três dias mesmo. Esse artigo aqui pode lhe ser útil:

      http://conhecereis-a-verdade.blogspot.com.br/2011/01/o-dia-da-crucificacao-foi-uma-sexta_6235.html

      Abs!

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