23 de junho de 2015

Comentários de João 11

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Este capítulo faz parte da obra: “O Novo Testamento Comentado”, de autoria de Lucas Banzoli e de livre divulgação.
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1 E estava doente um certo Lázaro, de Betânia, a aldeia de Maria e de sua irmã Marta. 
2 (E era Maria a que ungiu ao Senhor com o óleo, e com seus cabelos lhe limpou os pés; [a que] cujo irmão Lázaro era o que estava doente). 
3 Enviaram pois suas irmãs [uma mensagem] a ele, dizendo: Senhor, eis que aquele a quem [tu] amas está doente. 
4 E ouvindo Jesus, disse: Esta doença não é para morte, mas para glória de Deus; para que o Filho de Deus seja por ela glorificado. 
5 E Jesus amava a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro. 
6 Quando, pois, ele ouviu que estava doente, ficou ainda dois dias no lugar onde estava. 
7 Então depois disto voltou a dizer aos discípulos: Vamos outra vez à Judeia. 
8 Disseram-lhe os discípulos: Rabi, ainda agora os Judeus procuravam te apedrejar; e tu voltas novamente para lá? 
9 Respondeu Jesus: Não há doze horas no dia? Se alguém anda de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. 
10 Mas se alguém anda de noite, tropeça; porque nele não há luz. 
11 Ele falou estas coisas; e depois disto, disse-lhes: Lázaro, nosso amigo, dorme; mas vou para despertá-lo do sono. 
12 Disseram pois seus discípulos: Senhor, se [ele] dorme, será salvo. 
13 Mas Jesus dizia [isto] de sua morte; porém eles pensavam que falava do repouso do sono. 
14 Então pois lhes disse Jesus claramente: Lázaro está morto. 
15 E me alegro, por causa de vós, que eu não estivesse lá, para que creiais; porém vamos até ele. 
16 Disse pois Tomé, chamado o Dídimo, aos colegas discípulos: Vamos nós também, para que com ele morramos. 
17 Vindo pois Jesus, encontrou que já havia quatro dias que estava na sepultura. 
18 (E Betânia era como quase quinze estádios de Jerusalém). 
19 E muitos dos judeus tinham vindo até Marta e Maria, para consolá-las por seu irmão. 
20 Ouvindo pois Marta que Jesus vinha, saiu-lhe ao encontro; mas Maria ficou sentada em casa. 
21 Disse pois Marta a Jesus: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. 
22 Porém também sei agora, que tudo quanto pedires a Deus, Deus o dará a ti. 
23 Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressuscitará. 
24 Marta lhe disse: Eu sei que ele ressuscitará, na ressurreição, no último dia. 
25 Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição, e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. 
26 E todo aquele que vive, e crê em mim, para sempre não morrerá. Crês nisto? 
27 Disse-lhe ela: Sim, Senhor; já cri que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que viria ao mundo. 
28 E dito isto, [ela] se foi, e chamou em segredo a Maria, sua irmã, dizendo: Aqui está o Mestre, e ele te chama. 
29 Ouvindo ela [isto] , logo se levantou, e foi até ele. 
30 (Porque Jesus ainda não havia chegado à aldeia; mas estava no lugar onde Marta lhe saíra ao encontro). 
31 Vendo pois os judeus que com ela estavam em casa, e a consolavam, que Maria com pressa se levantara, e saíra, seguiram-na, dizendo: Ela vai para a sepultura, para chorar lá. 
32 Vindo pois Maria aonde Jesus estava, e vendo-o, caiu a seus pés, dizendo-lhe: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. 
33 Quando Jesus a viu chorar, e aos judeus, que vinham chorando com ela, comoveu-se em espírito, e ficou perturbado. 
34 E disse: Onde o pusestes? Disseram-lhe: Senhor, vem, e vê. 
35 Jesus chorou. 
36 Disseram pois os Judeus: Vede como ele o amava! 
37 E alguns deles disseram: Não podia este, que abriu os olhos ao cego, ter feito também que este não morresse? 
38 Comovendo-se pois Jesus outra vez em si mesmo, veio à sepultura; e era [esta] uma caverna, e estava uma pedra posta sobre ela. 
39 Disse Jesus: Tirai a pedra. Marta, a irmã do morto, disse-lhe: Senhor, já cheira mal, porque já é de quatro dias. 
40 Jesus disse-lhe: Não te disse, que se creres, verás a glória de Deus? 
41 Tiraram, pois, a pedra de onde o morto jazia. E Jesus levantou os olhos para cima, e disse: Pai, graças te dou, porque me tens ouvido. 
42 Porém eu bem sabia que sempre me ouves; mas por causa da multidão, que está ao redor, [assim] disse; para que creiam que tu me enviaste. 
43 E havendo dito isto, clamou com grande voz: Lázaro, sai fora. 
44 E o que estava morto saiu, [com] as mãos e os pés atados, e seu rosto envolto em um lenço. Disse-lhes Jesus: Desatai-o, e deixai-o ir. 
45 Pelo que, muitos dos Judeus, que tinham vindo a Maria, e haviam visto o que Jesus fizera, creram nele. 
46 Mas alguns deles foram aos fariseus, e lhes disseram o que Jesus havia feito. 
47 Então os sacerdotes e os fariseus juntaram o conselho, e disseram: Que faremos? Porque este homem faz muitos sinais. 
48 Se assim o deixamos, todos crerão nele, e virão os romanos, e nos tomarão tanto o lugar quanto a nação. 
49 E Caifás, um deles, que era sumo sacerdote daquele ano, lhes disse: Vós nada sabeis; 
50 Nem considerais que nos convém, que um homem morra pelo povo, e toda a nação não pereça. 
51 E ele não disse isto de si mesmo; mas que, como era o sumo sacerdote daquele ano, profetizou que Jesus morreria pelo povo. 
52 E não somente por aquele povo, mas também para que juntasse em um aos filhos de Deus, que estavam dispersos. 
53 Então desde aquele dia se aconselhavam juntos para o matarem. 
54 De maneira que Jesus já não andava mais abertamente entre os judeus, mas foi-se dali para a terra junto ao deserto, a uma cidade chamada Efraim; e ali andava com seus discípulos. 
55 E estava perto a páscoa dos judeus, e muitos daquela terra subiram a Jerusalém antes da páscoa, para se purificarem. 
56 Buscavam pois a Jesus, e diziam uns aos outros estando no Templo: Que vos parece? Que ele não virá à festa? 
57 E os sacerdotes e os fariseus tinham dado ordem de que, se alguém soubesse onde ele estava, o denunciasse, para que o pudessem prender.




11.6 ficou ainda dois dias no lugar onde estava. Uma crendice popular entre os judeus da época era que a alma pairava sobre o corpo de um morto por três dias e depois disso partia para seu destino espiritual. Ao quarto dia, o corpo já sem a vitalidade da alma apresentava sinais visíveis de decomposição e não podia ser mais ressurreto. Jesus esperou até o quarto dia para quebrar com estas falsas concepções populares e mostrar que ele é “Senhor dos vivos e dos mortos” (Rm.14:9), soberano o suficiente para ressuscitar quem ele quiser, não limitado às crendices e superstições do povo.

11.11 Lázaro, nosso amigo, dorme. A morte é equiparada ao estado de “sono”, porque, assim como quem dorme, os que morreram estão em estado de inatividade e inconsciência. Como bem definiu certa vez o apologista cristão Leandro Quadros, a morte é um “sono sem sonhos” (cf. Ec.9:5,10; Sl.6:5;115:16-18; 146:4; Is.38:18-19).

11.12 eles pensavam que falava do repouso do sono. Enquanto Jesus falava da morte como um sono enquanto analogia, os discípulos entendiam que Lázaro estivesse literalmente “dormindo” (ainda vivo).

11.16 para que com ele morramos. Os discípulos estavam com medo de morrer na Judeia, porque haviam acabado de procurar apedrejar Jesus ali (v. 8).

11.18 quinze estádios de Jerusalém. I.e, diferença de três quilômetros.

11.24 na ressurreição, no último dia. Este “último dia” está sempre relacionado com o dia da volta de Jesus, ao final da grande tribulação e antes do milênio (1Ts.4:13-17; 1Co.15:51-54).

11.25 ainda que esteja morto, viverá. Jesus é categórico em dizer que “ainda que morra, viverá” (no futuro), e não que “ainda que morra, vive” (no presente). A concepção cristã sobre a morte não é de um estado de vida no além, mas de não-vida, estado este sobreposto somente pela ressurreição dos mortos no último dia, trazendo novamente à existência aquele que antes estava literalmente morto (i.e, sem vida).

11.26 não morrerá. O original grego desta passagem diz: “αποθανη εις τον αιωνα” (não morrerá eternamente). Jesus não estava falando da primeira morte (a morte temporária, entre o falecimento e a ressurreição), mas da segunda morte (a morte eterna, final e irreversível).

11.27 tu és o Cristo, o Filho de Deus. Marta fez aquela mesma declaração de fé fundamental que é a rocha onde a Igreja está edificada – em “Cristo, o Filho do Deus vivo” (v. nota em Mt.16:18).

11.35 Jesus chorou. É interessante notar que mesmo já sabendo que iria ressuscitar Lázaro, Jesus ainda assim demonstrou genuína humanidade e chorou pela morte dele. O corpo de Jesus não era uma ilusão imaterial, como criam os docéticos, mas fisicamente real, experimentando sentimentos e reações emocionais humanas como qualquer um de nós.

11.41 Pai, graças te dou. O fato de Jesus orar ao Pai evidencia que são duas pessoas diferentes. A crença unicista de que Jesus e o Pai são a mesma pessoa é uma heresia que contraria o ensino dogmático de toda a Bíblia. Não apenas ambos são claramente diferenciados em vários ocasiões, como também Jesus fazia questão de orar ao Pai pedindo que a vontade dEle fosse feita, e não a de si próprio (Lc.22:42) – se Jesus fosse a mesma pessoa que o Pai, estaria sofrendo de um grave caso de bipolaridade. A Bíblia também ensina que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos (At.13:30), e não que ele se auto-ressuscitou. No batismo de Jesus, o Pai falou do céu e o Espírito Santo se manifestou em forma corpórea (Lc.3:22). Se Jesus e o Pai fossem a mesma pessoa, seria difícil entender os textos que falam sobre o Pai ser maior que Jesus (Jo.14:28) ou sobre Jesus estar subordinado ao Pai (1Co.15:28), ou sobre Jesus estar assentado à direita do Pai (Mt.26:64; At.7:56). Por fim, o batismo “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt.28:19) também evidencia que são pessoas distintas, embora sejam um único Ser (Deus), compartilhando da mesma natureza divina.

11.46 mas alguns deles foram aos fariseus. Mesmo com um milagre extraordinário que só seria possível ser realizado por Deus (uma vez que Satanás não pode realizar milagres de criação), ainda assim alguns judeus se recusaram a crer e preferiram ficar do lado dos fariseus. Isso nos faz lembrar do que Jesus contou na alegoria do rico e Lázaro, ao dizer que “se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (Lc.16:31).

11.48 e virão os romanos. Aparentemente, eles pensavam que Jesus era um Messias do tipo militar, que atuaria como rei dos judeus no lugar do César, atraindo o ódio e a vingança dos romanos que fatalmente viriam para acabar com a rebelião e dar um fim em todos os judeus e também ao templo.

11:51 ele não disse isso mesmo... mas profetizou. Isso mostra que até mesmo um ímpio, às vezes, é capaz de ser usado por Deus para dizer alguma verdade (ainda que isto não mude o fato de ser um ímpio).

11.53 se aconselhavam juntos para o matarem. V. nota em Jo.11:48.

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